Entre a Névoa e os Holofotes: Como os Cigarros Eletrônicos São Retratados na Mídia Popular

A imagem dos Cigarros eletrônicos no entretenimento de massa

Nas últimas décadas, a maneira como produtos ligados ao consumo de nicotina aparecem em filmes, séries, músicas e redes sociais passou por uma transformação considerável. Um dos protagonistas dessa nova onda é o vape, ou cigarro eletrônico — dispositivo que passou de uma novidade tecnológica a um símbolo visual recorrente na cultura pop. A construção da imagem dos cigarros eletrônicos na mídia popular está longe de ser neutra: ela molda percepções, influencia comportamentos e até mesmo define tendências entre diferentes gerações.


A evolução do cigarro na cultura visual

Durante boa parte do século XX, o cigarro tradicional era um ícone cultural consolidado. Hollywood o usava como símbolo de rebeldia, sofisticação ou mistério. Personagens como James Dean, Humphrey Bogart e até mesmo desenhos animados reforçavam essa associação.

Com o avanço das políticas antitabagismo e o endurecimento das normas regulatórias, o cigarro perdeu espaço nas telas. Foi nesse vácuo midiático que os dispositivos eletrônicos de vaporização começaram a surgir, discretos a princípio, mas com um apelo visual irresistível: luzes LED, design futurista, variedade de sabores e um ritual de uso que mistura tecnologia com estilo de vida.


Quando o vape se torna protagonista

A presença do vape em videoclipes, séries e até reality shows aumentou exponencialmente nos últimos anos. Artistas como Billie Eilish, Travis Scott e Doja Cat já foram vistos com vaporizadores eletrônicos em momentos tanto públicos quanto privados, o que rapidamente viralizou nas redes sociais.

O que antes poderia parecer um acessório passageiro passou a ser um marcador estético e comportamental. Em produções audiovisuais, os personagens que utilizam vaporizadores frequentemente são retratados como “modernos”, “alternativos” ou “antenados”. Essa associação visual contribui para reforçar a ideia de que o vape é mais do que um dispositivo de nicotina: é um símbolo de pertencimento e estilo.


Entre a Névoa e os Holofotes: Como os Cigarros Eletrônicos São Retratados na Mídia Popular


Mídias sociais: o ecossistema perfeito

Com o crescimento do TikTok e do Instagram como plataformas de lifestyle, os cigarros eletrônicos ganharam um novo palco: a cultura dos influenciadores. Challenges com anéis de vapor, truques com a fumaça, “unboxings” de novos modelos, resenhas de sabores — tudo isso se tornou conteúdo altamente visual e compartilhável.

É importante destacar que, nesse universo, muitas vezes a discussão sobre riscos à saúde é abafada por elementos estéticos. A embalagem bonita, o efeito visual da fumaça e a trilha sonora de fundo criam um ambiente quase onírico, onde o consumo parece parte de uma performance.


A dualidade da representação: entre o cool e o controverso

Se por um lado o vape é retratado como símbolo de estilo e inovação, por outro, ele também se tornou alvo de críticas e controvérsias, especialmente nos dramas adolescentes e documentários. Séries como “Euphoria” ou “13 Reasons Why” exploram o uso de cigarros eletrônicos como parte de um cenário maior de impulsividade, busca por identidade e conflito geracional.

Essas produções muitas vezes mostram os efeitos colaterais, o uso compulsivo e o impacto na saúde mental, funcionando como contraponto à estética glamourosa de outras mídias. Isso cria uma tensão narrativa interessante: o mesmo produto pode ser, simultaneamente, símbolo de empoderamento e de vulnerabilidade.


Estratégias visuais e narrativa subliminar

Há um aspecto técnico importante na maneira como os vaporizadores são inseridos na narrativa audiovisual. Raramente aparecem em situações aleatórias. Quase sempre, são introduzidos para marcar uma mudança de atitude do personagem ou para evidenciar sua alienação, tédio ou desejo de transgressão.

Além disso, o som do clique, o brilho do LED e o vapor denso que se dissipa são utilizados como recursos sensoriais — quase como trilhas sonoras visuais. Tudo isso reforça a ideia de que o uso do vape não é apenas uma ação, mas um gesto narrativo carregado de significado.


O impacto nos públicos mais jovens

Não é coincidência que boa parte do conteúdo que apresenta cigarros eletrônicos como algo estiloso ou aspiracional tenha adolescentes e jovens adultos como público-alvo. A linguagem visual, a música de fundo, a escolha dos influenciadores e a estética minimalista dos dispositivos conversam diretamente com esse público.

Estudos de comportamento e psicologia midiática sugerem que representações repetitivas e positivas desses dispositivos na cultura pop tendem a normalizar seu uso, reduzindo a percepção de risco. Isso torna ainda mais relevante a discussão sobre como a mídia deve se posicionar eticamente ao retratar o vape.